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sábado, 19 de março de 2016

Feijoada e terapia

Não sei o que aconteceu comigo depois dos 30, dos 32...
(Nunca confie em ninguém com mais de 30)
Quem disse isso?
Sei que fiquei londe do editor de textos
Talvez tenha extravasado de outra forma...
Como chorando em filmes e seriados
Sei que ontem tive uma caganeira
Por tomar weiss e dunkel de barriga vazia
Na verdade essa caganeira vem já do dia anterior
Eu pareço que não tenho dó do meu corpo
Estou com um buscopan na boca, vou engolir
Com uma Eisenbahn Strong Golden Ale de 8,5%

Hoje acordei pensando na música Bliss - i hear you call
Sempre acordo com uma trilha musical na cabeça
Ainda bem que isso não me incomoda
Senão teria me deixado louco
Mais louco do que já sou

Ontem assisti A Paixão de JL
Um jovem
Jovem de 35 anos, minha idade
Hoje (2016) somos jovens
em 1992, já era para ser um senhor pai de família
Pois bem... Ele tinha 35 anos em 1992
Era sensível, artista, fazia arte com feltros
Ganhou ou achou ou comprou (entrei atrasado no cinema)
um gravador de áudio.. aquelas fitinhas cassete
Gravou seu diário... Contando que era homossexual...
tinha vergonha de se assumir para sua família...
Não queria dar um desgosto daqueles
Falava de seus namorados... Parecia tímido... Sensível...
Não que eu seja (homossexual)
Aliás, sou assexual, o que desperta mais espanto ainda
Mas tenho minhas parafilias... Nenhuma ilegal... mas algumas que beiram
...
O negócio é que você o acompanha durante 82 minutos, guiado por sua voz
até que o ouve dar os últimos suspiros em áudio...
causados pela imunidade baixa...
causada pelo...
HIV....
positivo....

(Tem umas lésbicas morando do meu lado
não gosto da alegria delas
porque elas são jovens
e fumam maconha
e gostam de chupar buceta
e são felizes)

Pois bem,
Acordei com I HEAR YOU CALL
I HEAR YOU CALL MY NAME
This what they call
AMERICA
I hear you call my name
E fui almoçar feijoada com minha mãe, minha irmã e meu cunhado
E nos perdemos, tinha que circundar uma praça
E minha mãe perguntava pra minha irmã se era pra esquerda ou pra direita que deveria virar
Sendo que a porra da praça estava à nossa esquerda!
Como que vai circundar a porra da praça se a porra da minha mãe quer virar à direita e ir
à tangente
para longe da praça!
Eu como,
converso um pouco...
(Converso mais com minha solidão)
E na hora de ir embora percebo que no rosto da minha mãe faltava uma parte
um bife
um bifinho
mas ainda um bife
de carne faltando por conta de um câncer de pele
E eu que no carro fui achando
Que mulher burra.. como que pode querer circundar uma praça saindo pela tangente dela
Como pode ter se aposentado com um cargo tão alto... Deve ter dado pra mais alguém
É essa a imagem que eu tenho na minha mente
E quando ouso (eu quase nunca ouso)
Quando eu ouso olhar, ela é aquela figura frágil
Faltando uma parte
(Será que é por isso que eu não ouso olhar?)
Essa parte que nunca vai voltar
E eu tenho esse bloqueio
De não ter toda a empatia que eu deveria ter
E que quando eu resolver fazer terapia pra resolver isso
Não é só essa parte que vai faltar dela
Vai ser a parte inteira. O TODO.
);

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