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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Débito, por Marcelo Trancoso


Por Marcelo Trancoso

A pizzaria já funcionava no mesmo lugar há uns bons dois anos. Seu Manolo, que comprara o ponto pensando em abrir uma locadora, acabou mudando de idéia quando uma grande franquia abriu uma sucursal na região.
Desde o primeiro dia, Berlinda, a neta de seu Manolo, assumira os trabalhos do caixa. Era ela quem atendia os clientes no momento de acertarem "la dolorossa".
Diovano era um rapaz simples, vindo do interior. Estudava na capital há praticamente o mesmo tempo que a pizzaria abrira. E uma vez que Diovano conhecia pouco da cidade e não tinha muito tempo livre, sempre que possível, comia uma pizza na pizzaria do seu Manolo, que ficava praticamente do lado de casa, ou do lado do prédio onde Diovano morava, se assim preferir.
Ninguém sabe precisar bem quando foi o momento em que tudo se deu, só o que se sabe com certeza foi o que aconteceu naquele dia:
O rapaz desmaiado em frente ao caixa, e Berlinda desesperada com o telefone nas mãos, tentando ligar para alguma ambulância ou algo que fizesse as vezes desta.
O que de fato aconteceu, foi que Diovano jamais conversara com Berlinda. O rapaz, provavelmente o mais tímido de Perseguida do Norte, cidade do interior do estado, jamais tivera de lidar com os encantos de uma bela donzela.
Antes de desmaiar, Diovano viu passar por seus olhos toda uma história de encontros e acontecimentos envolvendo Berlinda.
Como nos momentos que, em casa, pensava nela. Enquanto se masturbava pensando na moça, repetia sempre a mesma palavra. Palavra esta, inclusive, que onde quer que estivesse, fazia com que Diovano lembrasse de Berlinda quase que instantaneamente.
Era como se fosse um código que automaticamente abria as portas do paraíso para Diovano. No simples pronunciar de uma palavra, tudo se transformava em amor e prazer. Tudo se transformava em Berlinda.
Em todas as vezes que Diovano acertara sua conta no Balcão, era sempre a mesma palavra que pronunciava, sempre o mesmo procedimento, o mesmo ato de interação para com seu símbolo pedestáltico de mulher perfeita.
E foi nesse dia, que apesar de ninguém além de Diovano e Berlinda ter prestado atenção, que esta última, que vinha aos poucos nutrindo um interesse cada vez maior pelo rapaz que mantinha fiel sua frequência ao estabelecimento comercial de seu avô, resolveu interagir de forma mais intensa para com seu cliente.
Berlinda, já cansada da solidão que a assolava há umas boas duas semanas após o término do namoro de três meses, pensou em convidar Diovano para tomar uma cerveja no bar que ficava há algumas quadras dali.
O que deixou Berlinda mais impressionada, foi a reação de Diovano, quando interpelado:
- Seu nome é Diovano né? Eu já vi no seu cartão, na última vez que você passou, eu anotei seu nome pra não esquecer. Porque sabe... eu estava pensando se a gente não podia sair na sexta feira, pra quem sabe tomar alguma coisa, o que você acha?
Esse era o primeiro contato que Berlinda estabelecia com Diovano, que não envolvesse o pagamento de sua conta, que não envolvesse a informação de valor devido e a expressão única de tipo de pagamento, a mesma palavra que Diovano, durante meses, levou consigo como mantra sagrado invocador de sua deusa Berlinda. Palavra essa, que no momento de total desespero e falta de preparo, foi a única que Diovano proferiu antes de desmaiar e ir ao chão:
Débito!

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